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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Qual é o pente que te penteia?

Como não fiz promessa para santo nenhum, achei que era de bom tom, depois de quase um ano sem fazê-lo, finalmente cortar o meu cabelo. Queria apenas me despedir das pontas, já em estado de arear panela, e fui incentivada por roomate, que resolveu cortar uma franja. A verdade é que fugi dos salões durante esse tempo todo porque não confio em cabeleireiro gringo, que só corta cabelo liso, loiro e lindo. O meu cabelo não nega, preciso de especialistas sensíveis. Pois então, o salão escolhido foi o Hair By Fairy, mas por motivos que nada têm a ver com expertise em cachos: é barato e fica num dos lugares mais fofos de Londres, em Neal's Yard, um bequinho super colorido onde tem até um restaurante brasileiro vegetariano.

Cidade cosmopolita, a moça que lavou meu cabelo era espanhola, e a que cortou, japonesa, loira e ondulada. Quando me viu, japinha arregalou os olhinhos puxados, e me fez uma pergunta que as pessoas adoram fazer por aqui: é de verdade? Se ela soubesse que venho do país da escova progressiva, entenderia que, se meu cabelo fosse originalmente liso, jamais eu faria qualquer coisa para cacheá-lo. Expliquei que, sim, os cachos são naturais. "Desde quando você era criança?", espantou-se. Aham, embora eu tentasse disfarçar. Ela me contou, então, que nunca havia visto cachos tão certinhos, nem aqui, nem no Japão (porque será?). Fiquei feliz com o elogio e deixei a moça cortar um pouco mais do que eu queria, já que acho que estou deixando meu cabelo crescer de novo, mas tudo bem, ao menos me livrei das pontas malditas.

Deixei também que ela brincasse com meu cabelo, no final, botando na minha cabeça todo o volume que ela gostaria de ter na dela. Ela se empolgou, com uma mousse, soltando meu cabelo com os dedos e abrindo todos os meus cachos, deixando um efeito de "frizz" que eu tanto adoro. Tava achando graça, porque eu já sabia que seria assim, disse que gostei, até dei uma gorjeta, porque ela era legal, a japinha. Mas saí do salão e prendi o cabelo imediatamente até chegar em casa, usar meu creme e deixar meus cachinhos do jeito que eu gosto, estilo menos Tina Turner. Pente japonês não me penteia, fato.


quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Do lado de dentro

Sempre reclamei da falta de tempo em terras estrangeiras, que as horas corriam mais rápido do que o normal e que os minutos gringos eram mais curtos do que os brasileiros. Agora que tenho uma “casa”, engraçado, o tempo já não parece mais acelerado. Não apenas a percepção temporal se tornou habitual, como também tenho a sensação de estar vivendo num lugar de verdade. Saí de um museu e agora há mulheres grávidas nos ônibus, crianças brincando de pique-esconde nos corredores do prédio, vizinhos que dão bom dia, motoristas que não param no ponto, engarrafamentos intermináveis, máquina de lavar que quebra, água quente que esfria... Londres agora parece uma cidade menos de fantasia e mais real.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Déjà vu

No dia 29 de dezembro de 1992, eu tinha 9 anos, nos mudamos para Paris. E uma das mais fortes lembranças que tenho da minha infância é desse dia e do frio experimentado ainda dentro do saguão do aeroporto, assim que a porta de saída se abriu. Uma sensação que até então não conhecia: um ar gelado, muito gelado, tão gelado que fazia os ossos doerem, o corpo tremer, a fala sumir. Eu e meus irmãos – então uns bebês – tínhamos ganhado uns casacos enormes, com os quais andávamos feito pingüins, e que pouco adiantavam. O frio persistia, aumentando conforme nos dirigíamos para o estacionamento. Eu, que já estava contrariada com a mudança, fiquei bem assustada. Tanto é que nunca esqueci a sensação daquela chegada há quase 16 anos. Hoje, passado todo esse tempo, a caminho de Londres, desembarquei em Paris, no mesmo aeroporto. Embora a temperatura estivesse cerca de 20 graus acima daquele pré-reveillon de 92, me senti como a garotinha que chegou com a família na cidade-luz. Com frio. Muito frio. Quando a porta se abriu para que eu saísse do terminal, os 15 graus deste ainda verão foram como os negativos de 92: gelaram meu corpo. Porque hoje não tinha irmãos para levar pela mão, uma mãe para segurar a minha, um pai para dirigir o carro, uma tia para abotoar meu casaco, tampouco uma bolsa da Pequena Sereia para carregar. Hoje só tinha eu. Eu e a saudade que carrego sempre, desde que decidi que seria forte e corajosa cidadã do mundo, como se eu fosse, como se eu pudesse escolher outro lugar que não o Rio de Janeiro para viver, como se houvesse a possibilidade de algum outro lugar do mundo ser a minha casa.